Antimofo
Sempre digo que só gosto do período chuvoso quando estou embaixo das cobertas.
Alaga tudo. A gente precisa sair de casa com mais antecedência por causa do caos em que o trânsito se transforma, carregar o trambolho do guarda-chuva, lidar com mais síndromes respiratórias e, em alguns casos, com a umidade e, junto dela, o mofo.
Janelas fechadas por mais tempo, céu cinzento e ausência de sol não contribuem para manter os ambientes arejados.
Sendo assim, e sendo eu a rainha da rinite alérgica, tirei um dia para limpar os armários e ventilar tudo. Esvaziei o guarda-roupas, coloquei algumas roupas para lavar e tirar o cheiro de guardadas, limpei tudo e distribuí os famigerados potinhos antimofo.
Enquanto cuidava dessa olimpíada antiácaro, peguei-me pensando: quanta coisa guardada. Quanta roupa, sapato, acessório. E o quanto isso fazia meu processo de limpeza e organização se prolongar.
O incômodo veio principalmente quando percebi que vários daqueles objetos eu já nem usava mais. Alguns, inclusive, eu sequer lembrava que ainda estavam ali, ocupando espaço e criando bolor.
Esporadicamente eu desacumulo. Mas, olhando com mais cautela, percebi que havia ali coisas que simplesmente foram ficando, mesmo sem me servirem mais ou terem qualquer valor econômico ou afetivo que justificasse permanecerem intocadas.
É exatamente assim que as coisas se acumulam em nossas vidas: pessoas, relações, responsabilidades e funções vão sendo mantidas, mesmo quando já não cabem em nós, não nos pertencem mais ou perderam o sentido.
Às vezes a gente não percebe de imediato, mas, com o tempo, o emocional vai ficando igual a um guarda-roupas superlotado: não cabe mais nada. Tudo começa a ficar pesado e mofado, porque seguimos acumulando; seja por comodismo, apego desnecessário, preguiça de olhar mais para dentro de si e reorganizar tudo, procrastinação ou pelo medo de abrir mão de algo e sentir falta depois.
O pior é que, em certas circunstâncias, achamos que sabemos tudo o que está guardado lá dentro. Mas só percebemos que não sabemos quando, cheios, nos pegamos perguntando: Pra quê tanta coisa? Por que guardei isso? Por que isso está ocupando meus espaços? Isso ainda é meu?
E há um perigo real nisso, porque permitir que pessoas, funções, relações e responsabilidades que já não são suas permaneçam ocupando lugar em sua vida, uma hora vai fazê-la pesar e você vai quebrar.
À medida que fui descartando objetos do armário, percebi que aquela sensação de espaço, esvaziamento e limpeza era necessária também em mim. Entendi que eu precisava deixar ocupar espaço dentro de mim apenas aquilo que pertence à minha essencialidade.
Os excessos, muitas vezes, escondem carências. E uma delas pode ser justamente a carência de si mesma: de libertar-se daquilo que já não agrega, que perdeu o sentido, que não deveria mais permanecer.
Claro que o processo de decidir entre o que fica e o que vai embora nem sempre envolve escolhas fáceis. A gente titubeia, porque tudo, de alguma forma, faz parte de uma história, de um momento. Sempre surge a pergunta: E se eu precisar?
No entanto, também é necessário abrir espaços para que novas vivências, pessoas, afetos, sentimentos e responsabilidades que realmente façam sentido possam ocupar a vida.
Quando se olha com mais atenção para o próprio armário — e para dentro de si — talvez se perceba também que, naquele momento, não seja preciso nada além de desapegar para criar espaço, reorganizar o que já tem e usar melhor aquilo que permanece. Talvez algumas coisas ainda valham muito e mereçam ajuste, cuidado, reinvenção. Mas, fora isso, não faz sentido continuar acumulando tanto apenas por acomodação, costume ou familiaridade.
E o essencial não significa desfazer-se de tudo ou viver com pouco. Significa ficar com aquilo que vale a pena, com o que é suficiente e faz sentido.
Penso que isso não me torna utilitarista, sem memória ou sem afetos. Apenas me deixa mais organizada, mais grata pelo processo, pronta para receber o novo e para permitir que permaneça somente aquilo que realmente importa.
Pense comigo: se estava esquecido em um canto, criando mofo porque você nunca mais mexeu, embora ainda ocupasse espaço, se já não lhe serve mais… por que continuar deixando que isso abarrote a sua vida?
Abra mão. Esvazie. Solte. Abra espaço.
Não sei se foi o antialérgico que mexeu com minha cabeça e eu fiquei tão reflexiva, só sei que isso tudo me ocorreu.
No fim da tarde, deixei as portas do armário abertas para o ar circular. Talvez algumas coisas dentro da gente também precisem disso: vento, espaço e um pouco de luz.
Depois de tudo limpo, o quarto parecia respirar melhor. Talvez eu também.
Escrevo. Eu mesma. Para ver melhor — e complicar um pouco (quando vale a pena).
© 2026 Carol Campos. Este texto é protegido por lei de direitos autorais (Lei 9.610/98). A reprodução parcial ou total é permitida apenas com a citação clara da autora e link para a fonte original.



Desapegar , tirar o excesso , deixar ir , permanecer somente o que é usual e útil. Faz sentir- se mais leve e livre . Ainda preciso fazer mais disso .
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